Predições de Filosofia? Como os filósofos poderiam se fazer úteis
por Nicholas Bostrom
Departamento de Filosofia, Lógica e Método Científico
Escola de Economia de Londres
(9 abril, 1997. Modificado em 21 de outubro, 1997)
[ [tradução atualizada em 19/03/98 por: Gustavo Muccillo Alves]
Se você pode observar as sementes do
tempo,
E dizer qual grão crescerá e
qual não,
Fale então a mim.
SHAKESPEARE (MACBETH)
Sumário. O propósito deste texto, atrevidamente declarado, é propor um tipo novo de filosofia, uma filosofia cuja pontaria é a predição. A velocidade do progresso tecnológico está aumentando muito rapidamente: parece que nós estamos testemunhando um crescimento exponencial, a taxa de crescimento sendo proporcional ao tamanho já obtido, com conhecimento científico que dobra a cada 10 ou 20 anos desde a Segunda Guerra Mundial, e com a velocidade do processador de computador que dobra a cada 18 meses aproximadamente. Argumenta-se que este desenvolvimento tecnológico torna indispensáveis muitas perguntas empíricas às quais um filósofo deve estar bem-apropriado para ajudar a responder. Eu tento encobrir uma extensa série de problemas interessantes e abordagens, o que significa que não entrarei profundamente em qualquer um deles; eu apenas tento dizer o bastante para mostrar o que alguns dos problemas são, como alguém pode começar a trabalhar com eles e por que a filosofia é pertinente. Minha esperança é que isto estimulará o seu desejo para lidar com estas questões ou pelo menos aumentará a consciência geral de que elas são tarefas merecedoras de intelectos de primeira-classe, inclusive daqueles que devem pertencer aos filósofos.
O Polímata
Os cientistas às vezes não vêem os filósofos como seus colegas cientistas; e alguns filósofos não têm nenhuma consideração a si próprios como cientistas. Esses filósofos poderiam ter se dedicado à metafísica clássica ou à ética ou de fato poderiam ter feito um estudo da própria ciência, sem por isso fazerem ciência da mesma forma que os cientistas. Eu não vou negar que esses filósofos poderiam estar fazendo algo que valesse a pena, que poderia ser uma tarefa legítima a ser realizada. O que farei é sugerir que também há outras tarefas, nenhuma menos legítima, às quais um filósofo poderia se dedicar satisfatoriamente por dever de cargo, que não são claramente dissociáveis da profissão do cientista. Exemplos incluem iniciativas como a explicação da teoria do quanta, ou mecânica estatística, ou Darwinismo — ao menos como é entendido por algumas das pessoas envolvidas —, mas o que eu tenho em mente é algo a mais.
Parece-me que durante um certo tempo, mais especificamente nos últimos dez anos ou aproximadamente isso, um papel de estreante que ainda espera por algum ator tem se desenvolvido no estágio intelectual. Esse é o papel do cientista generalista, ou polímata, que tem qualidades em muitas áreas da ciência e a habilidade de usar essas qualidades para trabalhar em soluções para aqueles problemas mais complicados, que são normalmente considerados muito difíceis para os cientistas e, por esta razão, também são confiados aos políticos e à imprensa popular ou apenas ignorados. A lástima é que ignorar esses problemas não faça com que eles desapareçam e, deixá-los para as pessoas não-formadas nas ciências torna improvável que resultem em melhores soluções, determinada a relevância sólida do entendimento científico a todos esses problemas e a complexidade desta relação de relevância (que torna impossível para o avalista/legislador determinar a relevância das contribuições dos peritos, a menos que ele (ela) — se não for um(a) perito(a) — neste caso pelo menos tenha uma sólida compreensão dos princípios básicos envolvidos em todas as disciplinas).
A importância de se acharem soluções boas para estes problemas não pode estar em disputa. Alguns deles são desafios para a vida sobrevivente extremamente inteligente.
“Mas quem seria tão pedante a ponto de se imaginar capaz de se tornar um perito em tudo! Talvez houve um tempo quando um grande gênio pôde esperar dominar a essência de tudo, da ciência de sua época, mas aquele tempo há muito já se foi, e o único modo de progredir além disto tem sido através da especialização. É muito ingênuo supor que qualquer pessoa, a não ser alguém que tenha feito disto o seu projeto de vida, poderia, por exemplo, avançar nas teorias modernas da física em relação ao ponto em que elas se encontram agora. É simplesmente muito difícil para amadores, queira-se ou não”. De acordo. Nós continuaremos precisando de especialistas quase que sempre. Mas também precisamos de alguns de primeira-classe, intelectos que estão dispostos a se dedicar em tempo-integral à profissão de ciência em geral, que decidem infundir suas aptidões no projeto de tentar obter um resumo sobre toda obra científica, de tentar entender a relevância das leis particulares e dos fatos para as últimas metas de nossa sociedade ou de nossa espécie (quais são essas metas, é claro, é outra questão, mas minha suposição é que muito do entendimento de que nós precisamos independe de exatamente quais metas, de longo-prazo, adotamos. E confrontando as metas diferentes nós sempre podemos evitar as subjetividades das próprias).
Agora, como o filósofo entra nesta cena? De três maneiras. Primeiro, a Filosofia tem historicamente representado o papel de uma mãe ou de uma Montessori para muitas disciplinas em desenvolvimento. Os filósofos tiveram licença para exercerem qualquer pesquisa que eles considerassem interessante e, de acordo com uma visão popular (entre filósofos), foi esta a liberdade que deu à luz as ciências individuais, uma após a outra, e proporcionou um ambiente no qual estas puderam se desenvolver e se transformar em disciplinas independentes. É natural que nós devamos nos voltar uma vez mais para filosofia e pedir a ela que nos empreste o seu velho berço para esta mais nova criança. Que não seja alegado que o assunto proposto em questão não é bastante objetivo ou “acadêmico”. Há uma filosofia da política, uma filosofia da religião, há a ética e até mesmo uma filosofia da arte; seria estranho então se a filosofia da predição tecnológica (ainda precisando de um nome melhor) fosse muito subjetiva para ser academicamente aceitável. Esta pode ser tão engajada com a ciência quanto alguém poderia possivelmente desejar.
A segunda razão por que o filósofo entra em cena é que o seu treinamento é exclusivamente certo como um fundamento para o conhecimento científico específico que será requerido. A habilidade analítica e o exercício em clarificação conceitual que ele obteve esperançosamente com o seu treinamento são recursos inestimáveis para um polímata aspirante. Se lhe falta um entendimento da pragmática da ciência, ele precisa desenvolvê-lo. Então ele será apropriado para a tarefa.
Também há um terceiro modo no qual o seu treinamento será útil para si próprio. Nenhuma razão existe por que um polímata não deva se especializar em tudo. Naturalmente haverá alguma divisão de trabalho entre os polímatas também e, embora essa divisão normalmente não deva tanto obedecer aos limites do contexto do assunto quanto aos do contexto do problema, inevitavelmente haverá problemas ou fatores que serão mais associados intimamente com o contexto de um assunto do que com o de outros. E isto implica surpreendentemente que alguns clássicos problemas filosóficos podem ter implicações empíricas importantes quando se trata de predizer o nosso futuro! (eu darei alguns exemplos disto, mais tarde). Agora será mais do que oportuno ao filósofo usar especificamente o seu conhecimento filosófico; o filósofo-polímata pode atender aos aspectos filosóficos dos grandes problemas.
Eu imagino que o leitor neste momento, enquanto poderia concordar de modo geral com o que foi dito, ainda está um pouco incerto sobre o que exatamente faz o filósofo-polímata. Eu penso que o melhor modo para explicar isto é verificarmos alguns exemplos. Isto é o que estarei fazendo no resto deste artigo.
Seus comentários são bem-vindos
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