O paradoxo de Fermi
por Nicholas Bostrom
Departamento de Filosofia, Lógica e Método Científico
Escola de Economia de Londres
[tradução atualizada em 03/98 por: Gustavo Muccillo Alves]
Tem havido muitas especulações sobre a famosa pergunta de Fermi: “Onde ‘eles’ estão?” Por que nós não temos visto qualquer rastro de vida “extraterrestre” inteligente? Uma maneira de responder a esta questão (Brin, 1983) é que nós ainda não vimos rastros de vida alienígena inteligente porque não há nenhuma vida deste tipo porque esta forma de vida inteligente tende a se autodestruir logo que alcança a fase em que pode se ocupar com a colonização cósmica e a comunicação. Esta conclusão é exatamente como a do argumento do Dia do Juízo Universal (por exemplo, é provável que nós pereçamos logo), obtida por uma linha de raciocínio completamente diferente.
Toda disciplina de pensamento sobre o paradoxo de Fermi tem sido criticada (por exemplo, Mach, 1993) por ser muito otimista sobre a capacidade de levantar dados disponíveis para apoiar interessantes e válidas conclusões sobre civilizações extraterrestres. Alguém pode entusiasticamente concordar com esta crítica se ela for aceita para determinar apenas a insuficiência de apoio evidencial para muitas das reivindicações feitas na literatura, freqüentemente baseadas em extensões bastante ingênuas de métodos estatísticos ordinários para este campo extraordinário, produzindo resultados numéricos que dão uma falsa sensação de exatidão obtida. Mas considerando-se que uma linha de pensamento mal-feita deve ser desconfiável, eu penso que seria muito ingênuo concluir que nada de interessante possa ser conhecido sobre o assunto. Igualmente penso que o progresso já foi alcançado, respondendo-se a algumas das questões menores do paradoxo de Fermi. O problema é que nossa resposta para a principal pergunta não será mais certa do que a resposta a mais incorreta pergunta menor; mas exatamente pela mesma razão nós poderíamos esperar obter respostas parciais definitivas interessantes mesmo que perdêssemos as esperanças sobre achar a qualquer momento a resposta completa.
Um modo de abordar o paradoxo de Fermi é reformulá-lo nas condições de um “Grande Filtro”, como sugeriu Robin Hanson em seu excelente e recente resumo do assunto (Hanson, 1996). O tema é complicado e nós não podemos entrar em detalhes aqui, mas é útil esboçar a estrutura básica do problema porque fazendo isto poderemos assim mostrar as várias situações em que um filósofo poderia contribuir. O raciocínio que segue parecerá muito especulativo e superficial; em parte por sua natureza, mas também porque eu tenho de manter o sumário de apresentação.
O “Grande Filtro” se refere ao(s) mecanismo(s) hipotético(s) ou princípio(s) pelo(s) qual(is) o grande número de planetas que suportam a vida são removidos antes de produzirem formas de vida inteligente que se expandem no cosmos. Em algum lugar ao longo do caminho da existência de um planeta satisfatório para a de uma correspondente espécie colonizadora espacial parece estar algum intervalo improvável que quase sempre falha.
A alguns meses antes da primeira versão deste artigo ser escrita a NASA anunciou que indícios de vida tinham sido achados dentro um meteorito de origem marciana. Foi dito que isto deu um apoio considerável à hipótese de que houve uma vez em Marte formas de vida primitivas que emergiram e evoluíram independentemente da biosfera daquele planeta. Mais recentemente análises novas indicaram que as formações no meteorito devem ter sido produzidas através de processos não-biológicos; nesta fase os cientistas estão divididos nos pontos de vista, e nós teremos de provavelmente esperar por missões espaciais novas para Marte antes que possamos contar com qualquer confiança sobre se houve vida naquele planeta ou não. Mas suponha que acontecesse que aquela vida se desenvolveu de fato independentemente em Marte. Qual seria a reação de alguém ao saber disto? Excitação e alegria a respeito desta importante descoberta científica, claro.
Mas espere um minuto! Se a vida emergisse independentemente em dois planetas, então em nosso sistema solar ela deve ter emergido também seguramente em muitos outros grandes planetas ao longo do cosmos. Tem sido estimado que há aproximadamente 1010 planetas habitáveis em nossa galáxia e aproximadamente 1020 tais planetas no universo visível; assim se não é tão improvável que a vida evolua em um planeta habitável então deve haver um número extremamente grande de planetas em nossa galáxia onde a vida evoluiu e um número até maior no universo visível. Agora considere as seguintes afirmações (problemáticas):
1. Uma vez que uma vida primitiva surgiu de um planeta há uma significativa probabilidade de que ela evoluirá gradualmente em formas de vida, comparáveis em poder tecnológico com a atual civilização humana.
2. Se uma civilização que se tornou equivalente à atual humanidade continua prosperando durante algum curto tempo (alguns cem anos, digamos) é provável que ela desenvolva habilidade para construir uma sonda de von Neumann (ou seja, máquinas que têm o propósito geral de se autoreproduzir em um ambiente natural).
3. Quando uma civilização puder construir uma sonda de von Neumann então terá habilidade para se empenhar em um processo de colonização cósmica (de baixo custo), uma extensão esférica em alguma fração significativa da velocidade da luz (0.1c, digamos). E há uma probabilidade significativa de que ela optará por fazer assim.
4. Se tal onda de colonização fosse cruzar o caminho da Terra, nós notaríamos a sua presença.
Se nós associarmos as afirmações de (1) a (4) com a suposição de que a vida surgiu independentemente em Marte, seguiria que nós quase certamente notaríamos uma onda de colonização. Uma vez que não percebemos nada disto (a não ser os crentes em OVNI), uma vida em Marte implicaria (com probabilidade muito grande, maior do que 0.99, digamos) que pelo menos uma das suposições de (1) a (4) é falsa.
Mas qual delas? Vamos começar examinando a primeira. Dividindo-se em duas (para simplificação nós aqui desconsideraremos a possibilidade de serem equivalentes aos humanos (por exemplo, insetos inteligentes?) aqueles seres que não evoluem, embora equivalentes aos símios-humanóides):
(1.1) Há uma probabilidade significativa de que o equivalente ao símio-humanóide evoluirá em um planeta de onde formas de vida primitivas se originaram.
(1.2) há uma probabilidade significativa de que o equivalente ao símio-humanóide evoluirá até seres equivalentes ao humano.
Pode a biologia evolutiva em sua fase atual nos contar algo sobre se (1.1) ou (1.2) são verdadeiras? — sim, parece que pode, embora as conclusões sejam freqüentemente problemáticas e requeiram sofisticação metodológica considerável.
A afirmativa (1.2) parece ser verdadeira, porque levou tão pouco tempo para a evolução produzir os humanos civilizados dos símios-humanóides. Dois milhões de anos, ou tempo semelhante, é uma mera centelha nestas escalas de tempo, então este salto evolutivo deve ter ocorrido facilmente. Quer dizer, dado que uma espécie inteligente civilizada evoluirá em um certo planeta e, dado que nesse planeta já evoluíram símios-humanóides, então se o salto do símio-humanóide para o homem civilizado levasse um tempo muito longo, isto indicaria que tal evolução seria difícil de acontecer, ou seja, improvável (a menos que o intervalo pudesse ser repartido em partes menores altamente prováveis, mas com desperdício de tempo). Então uma vez que o progresso não levou um tempo muito longo, mas, ao contrário, muito rápido, isto nos dá alguma razão para acreditar que a transição não foi afinal de contas tão improvável, ou seja, que não é tão improvável que os símios-humanóides tenham evoluído para os humanos. Este argumento, como é apresentado, é claro que não é absolutamente perfeito, mas parece um modo promissor de observar a Era Fanerozóica inteira como palco provável da parte principal do “filtro”. Ainda poderia conter alguma parte do filtro, mas é improvável que pudesse eliminar as mais de 10 ordens de magnitude requeridas para explicar a ausência de vida extraterrestre inteligente (exatamente quantas ordens de magnitude precisam ser justificadas, depende de quais suposições nós fazemos sobre o valor da velocidade de extensão Ve). Este argumento levanta problemas complexos de uma natureza metodológica que um filósofo com um conhecimento especializado em biologia evolutiva poderia ajudar a solucionar (também veja Hanson (1996) e Carter (1983)).
A respeito de (1.1), o posicionamento é mais indeciso. As mais recentes descobertas da biologia evolutiva não podem nos falar com qualquer confiança sobre se esta hipótese é válida. Mas há coisas que nós poderíamos descobrir, que esclareceriam este assunto. Nós podemos procurar saltos ou fases na evolução, para vermos se houve quaisquer intervalos, em particular, que tomaram um tempo muito longo para que a evolução acontecesse — talvez a passagem de procariontes para eucariontes ou para o oxigênio começar a ser usado na respiração, ou talvez o que culminou na sexualidade do eucarionte, ou para a dos metazoários; também podem ter havido fatos importantes na escala molecular, a invenção de tipos novos de divisão celular, etc. Nós também podemos procurar por razões externas para a existência de períodos que evoluíram lentamente. Por exemplo, a respiração por oxigênio não pôde evoluir antes de existir qualquer oxigênio livre para respiração e antes de 2000 a 1800 anos atrás a atmosfera deve ter sido mantida a mais ou menos um nível anaeróbico. A explosão Cambriana parece ter sido causada por um aumento significativo no nível de oxigênio atmosférico — um aumento que poderia ter sido impossível, até então, devido à prevalência de válvulas de oxigênio não-saturadas (formações ferríferas bandadas, micróbios aeróbios facultativos e gases vulcânicos reagentes). Assim, se a explosão Cambriana exigiu um nível elevado de oxigênio disponível nos oceanos então a razão pela qual isto não ocorreu mais cedo foi que ela teve de esperar até as válvulas terem sido saturadas, um processo que levou algum tempo, mas que se determinou a acontecer mais cedo ou mais tarde; e neste caso nós poderíamos procurar pelo grande filtro em algum lugar além do trajeto para a Explosão Cambriana. Um papel similar foi reivindicado para uma camada de ozônio protetora — um filósofo que pretendesse escrever sobre o Grande Filtro teria que aprender muito sobre estas coisas antes de ter uma opinião formada.
A suposição (2) é talvez, até mesmo, mais interessante do que a (1) porque afeta o que acontecerá ao humano diretamente no futuro próximo. Um fator importante é a viabilidade ou não de uma maciça nanotecnologia. Se a nanotecnologia de forma sólida se tornar viável, então quase tudo será possível — inteligência artificial sobre-humana, uploading (transferência de uma mente humana para um computador, lendo a estrutura sináptica no cérebro e simulando-a em um supercomputador), realidade artificial, produção extremamente barata de todos os bens-de-consumo, sonda de von Neumann e possivelmente ressurreição de pessoas anteriormente congeladas em suspensão criogênica. Estudos preliminares indicam que a nanotecnologia maciça é compatível com todos os princípios físicos conhecidos [A]; se isto é certo, então o único problema é de origem prática: como fazer as primeiras nanomáquinas — porque é bastante difícil fazê-las, a menos que você já tenha ferramentas nanomecânicas. Um esforço considerável está sendo empregado nesta área, especialmente no Japão, e o progresso é contínuo. Muitos recordarão o logotipo da marca IBM escrito com 35 átomos de xenônio em uma superfície há alguns anos. Há cerca de um mês houve uma descoberta; um grupo de físicos no MIT teve sucesso construindo o primeiro laser atômico do mundo, uma tecnologia com possíveis implicações para a manufatura precisa, desde chips de computador a outros inventos em pequena-escala.
Houve uma preocupação considerável sobre os riscos em potencial da nanotecnologia. Se pudesse ser usada para fabricar todos o bens que nós quisermos, também poderia ser usada para criar todos os males que nós não desejamos. Há o risco de acidentes. Algumas nanomáquinas auto-replicantes podem agir como vírus poderosos, afetando organismos biológicos, ou podem começar até mesmo a transformar toda biosfera em alguma outra substância, agindo como enzimas e catalisadores superiores, erguendo o meio químico para fora de um mínimo de energia local e usando a energia liberada, quando esta cair para um valor menor, para reproduzi-las; proliferando o processo, assim, até a Terra ter sido modificada além do reconhecimento e toda a vida orgânica ter sido extinta. Isto é conhecido como a previsão da “Gosma Cinzenta” (Gray Goo).
Outro risco, até mesmo mais ameaçador, seria o uso militar em potencial da nanotecnologia maciça. Nenhuma potência mundial seria provável de deliberadamente aniquilar toda raça humana, mas há os riscos de terrorismo e ditadores sedentos de poder, bem como de situações de aniquilação mútua no estilo da Guerra Fria.
Assim, chegamos à conclusão ligeiramente paradoxal de que há alguma razão para acreditar que a nanotecnologia maciça poderia estar disponível para nós relativamente logo (talvez até mesmo dentro de algumas décadas), permitindo-nos construir, assim, sondas de von Neumann enquanto que ao mesmo tempo esta nanotecnologia pode causar a falha da suposição (2), porque poderia ser de tal natureza que praticamente qualquer civilização que a inventasse causaria, assim, sua própria destruição.
A Nanotecnologia maciça é um caso particularmente evidente, mas o que tem sido dito até certo ponto também generaliza outras poderosas tecnologias novas que poderiam nos permitir construir a sonda de von Neumann.
Eric Drexler (1992) discutiu o que ele chama de ciência teórica aplicada (ele também chamou isto de engenharia exploratória), que é a disciplina de traçar e desenvolver os princípios de máquinas que nós ainda não temos a habilidade técnica para construir, mas que são consistentes com as leis físicas e com o acúmulo de matéria-prima. Ele imagina que tais arrojados esforços são valiosos porque eles aumentam nossa previsão e nos permitem antecipar os perigos e desenvolver soluções em tempo. A ciência teórica aplicada é totalmente baseada neste padrão de referência e, assim, requer habilidades de engenharia combinadas com um específico conhecimento das físicas subjacentes à almejada máquina. O filósofo poderia ter algum papel para desempenhar aqui, sugerindo para quais propósitos poderiam ser construídas máquinas e pensando como tais máquinas diferentes devem interagir ou depender uma da outra. Uma relação óbvia, que ninguém precisa ser um filósofo para deduzir, é que não é improvável que uma inteligência artificial sobre-humana (maior do que a inteligência artificial) conduziria depressa à nanotecnologia maciça (se tal evento é possível de se realizar) e, então, tal nanotecnologia conduziria depressa a algo maior do que a inteligência artificial. A primeira hipótese acontece porque algo maior do que a inteligência artificial poderia nos contar sobre como lidar com a nanotecnologia; a segunda também porque a maciça nanotecnologia nos permitiria construir réplicas estruturais dos melhores cérebros humanos, onde a escala de tempo fosse acelerada por várias ordens de magnitude (o processo da membrana e as velocidades dos sinais sinápticos do cérebro são lentos se comparados a eventos correspondentes em um circuito eletrônico). Também deve parecer relativamente simples estender a capacidade da rede, adicionando-se neurônios e conexões [B].
A suposição (3) contém duas partes:
3.1. Uma civilização, com a sonda de von Neumann, pode se engajar numa colonização cósmica de baixo custo.
3.2. Há uma probabilidade significativa de que ela assim o fará.
Em respeito a 3.1, pode haver uma pequena dúvida inerente. Tudo aquilo que a civilização teria de fazer seria enviar uma sonda de von Neumann para algum outro planeta em nosso sistema solar. Lá a máquina se reproduziria algumas vezes e a descendência voaria para outras estrelas, reproduzindo-se novamente e assim por diante. Um processo de colonização exponencial poderia ser iniciado, lançando-se uma única sonda.
(Até mesmo sem replicadores de Neumann, um programa de colonização espacial seria viável (muitos estudos de viabilidade foram levados a cabo e demonstram isto [C]), embora o custo inicial possa ser mais alto e a taxa de expansão mais lenta. O tempo de consolidação — o tempo levado entre a chegada de uma missão para um planeta até o ponto em que a colônia pode enviar missões novas de seu próprio planeta — é provavelmente pequeno, se esta colônia se forma em uma máquina de von Neumann e muito pequeno (uma questão de horas ou dias), se houver nanotecnologia maciça, mas levaria muito mais tempo, se fosse originada por uma frota espacial tripulada por humanos, que precisassem construir então uma sociedade inteira no planeta novo antes que pudessem contribuir bastante para o processo de colonização).
A proposição 3.2. é mais difícil de estimar. As razões pelas quais se devem enviar sondas de von Neumann são fortes. O que quer que seja que uma civilização aprecie, ela pode obter mais se colonizar o espaço do que se ficar em seu planeta natal. A segurança também parece influir na decisão. Cada civilização notaria que, se há uma outra civilização agressiva no universo, então essa civilização agressiva chegaria ao seu planeta em última instância e o transformaria em material para suas próprias construções. A melhor estratégia parece ser a expansão máxima em todas as direções.
Alguns têm argumentado para 3.2 no âmbito de que o fato de que o sol se esgotará daria para qualquer civilização um motivo forte para se ocupar de colonização espacial. Este poderia ser um argumento ruim porque só lhes daria um motivo para migrarem a outro sistema solar, não o de começar um processo de desenvolvimento exponencial, que é a conclusão desejada. É verdade que lhes proporcionaria um motivo para desenvolverem a tecnologia pertinente (que poderia ser usada então facilmente também em outros projetos); mas a falta de uma demanda para a tecnologia nunca foi uma objeção contra 3.2.. Para a tecnologia requerida (nanotecnologia, sonda de von Neumann, etc.), serviriam muitos outros propósitos também, assim sempre haveria incentivos fortes para trabalhar com nanotecnologia.
Também há argumentos contra 3.2.. Foi sugerido que haveria razões para qualquer colonizador tomar cuidado para que não fosse descoberto por civilizações no estágio da Terra, talvez por motivos éticos ou porque esse colonizador ganharia mais com uma observação disfarçada da civilização primitiva sem perturbá-la (Sagan e Newmann 1982) (esta conclusão final eu acho implausível). Outra razão, (Sagan & Newmann 1982; De Garis 1996), é que seria muito arriscado enviar auto-replicantes ao espaço porque não haveria nenhum modo de garantir que eles não se corromperiam e se voltariam contra o planeta-mãe, esparramando-se pelo espaço como um câncer cósmico. A fim de avaliar esta objeção nós teríamos de observar a viabilidade de eliminação de erro no processo de construção e na migração autônoma e reprodução — pelo menos em princípio parece possível usar redundância para tornar a vida útil de uma sonda de von Neumann arbitrariamente grande. O risco de erros sistemáticos de construção poderia ser minimizado havendo muitas cópias projetadas independentemente. Também há outras objeções a esta sugestão.
Até mesmo sem se encontrar uma possível forma de vida em Marte, há algumas indicações de que a vida extraterrestre poderia não ser incomum. Descobertas biológicas notáveis aqui na Terra durante a última década mostraram que esta forma de vida é muito mais sólida do que uma vez foi imaginado. Nós sabemos agora que extraterrestres podem viver e prosperar em tais domicílios inóspitos como em centenas de metros abaixo da crosta terrestre, em óleo e camadas salinas e nas águas ferventes ao redor das fendas hidrotérmicas nas profundidades marinhas, que expelem magma se alimentando de pedras e enxofre. Isto estende a série de ambientes ásperos em que nós sabemos que a vida poderia sobreviver.
Ao avaliar as suposições (1) e (4) é importante não perder a noção do fato de que os contra-argumentos se combatem em uma batalha extremamente laboriosa. Talvez algumas civilizações escolheriam não se ocupar de uma ampla colonização cósmica, mas entre vários bilhões supor que nenhuma única civilização (ou parte de uma civilização, ou seja, uma nação) em algum ponto de seu estágio se inclinaria a lançar uma sonda de von Neumann — é extraordinário! Parece mais provável que um salto evolutivo improvável (ou possivelmente o aparecimento de vida em um primeiro momento, se tal vida em Marte tivesse se tornado uma utopia) poderia responder pelas dez ou vinte ordens de magnitude de improbabilidade que precisam ser justificadas.
Mas talvez esta seja uma conclusão bastante perigosa. Admitindo-se que a decisão fosse fazer sociedades comparáveis às presentes nações terráqueas, então nós estaríamos absolutamente desiludidos por qualquer argumento que pressupusesse uma tal uniformidade extrema na atitude destes povos para a colonização espacial. Porém, o que nós discutimos são as sociedades do futuro. Talvez seja um critério geral que quando as tecnologias requeridas para uma colonização espacial em larga-escala estiverem disponíveis também haverá tecnologias disponíveis com uma profunda influência na decisão de obter avanços nas sociedades? Isto culminaria na convergência de todas as culturas suficientemente avançadas (o que eu chamei de a sólida hipótese de convergência). O quão aceitável é isto?
Não tão improvável quanto poderia ser primeiramente, eu penso. A tomada de decisão crucial a transformar a tecnologia poderia ser a dos seres superiores à inteligência artificial. É plausível assumir que algo superior à inteligência artificial estará praticamente disponível continuamente, não muito depois de a nanotecnologia maciça ser inventada. Agora, se houvesse uma razão sã por que não se envolver com a colonização cósmica indiscriminada, então esta poderia ser satisfatória de tal maneira que todo ser superior à inteligência artificial a descobriria. Então, se os seres maiores do que as inteligências artificiais sempre tivessem muita influência sobre o governo destas civilizações avançadas (tendo angariado poder para si mesmos ou explicado tão claramente suas razões que pudessem persuadir qualquer governo de sua validez), sua atividade uniforme sobre todas as civilizações evitaria qualquer política de colonização agressiva em qualquer planeta.
Há vários pressupostos questionáveis relativos a este argumento, mas eu penso que ele deve ser visto como uma possibilidade. A pressuposição de um ser maior do que a inteligência artificial ser invariavelmente desenvolvido, não muito depois de as máquinas de colonização eficiente ficarem obsoletas, poderia ser abrandada. Para isto, basta que tal entidade maior do que a inteligência artificial seja desenvolvida em alguma época não muito longínqua (mas que possa estar bastante distante) da origem do processo de colonização; para então ela poder idealizar um modo de fabricar presumivelmente veículos espaciais mais rápidos, que poderiam capturar e destruir os colonizadores originais se esta fosse sua vontade ou transformá-los em colonizadores, que se preocupariam em tomar cuidado para não serem notados em civilizações primitivas.
Também poderia haver muitas outras forças que impulsionariam uma convergência entre civilizações avançadas: controle sobre de sistemas de motivação (por exemplo, por meio de droga ou implante de eletrodo), para citar alguma. As hipóteses sólidas de convergência, como também suas variantes mais fracas, também são interessantes à parte do contexto do Grande Filtro. Essas hipóteses de convergência claramente se estendem além do domínio da Ciência Social, e algumas habilidades satisfatórias para lidar com elas também incluiriam Psicologia Motivacional, Ciências da Computação, Filosofia, Neurociência, Economia, entre outras.
Sobre a (4), nós podemos dizer que quase teríamos certamente notado o movimento de colonização, se este tivesse passado pela Terra enquanto não fazia nenhum esforço para permanecer imperceptível. Se a maciça nanotecnologia estivesse disponível, o planeta inteiro poderia ter sido transformado em um computador gigante ou algo igualmente drástico. Se algum esforço fosse feito para evitar tal descoberta, então este deveria ter sucesso; ou teria de incluir um modo de anular nossa percepção das regiões distantes do espaço, ou todo processo de colonização teria de ser tal que não reequipasse o cosmos em formas que nós teríamos descoberto com a tecnologia e a teoria hoje presentes (minha opinião é que não é improvável que este poderia ser o caso, se houve algum processo de colonização para evitar a descoberta, o que, porém, eu não considero particularmente provável).
Uma avaliação da evidência útil em respeito ao Grande Filtro teria conseqüências diretas para nossas estimativas de sobrevivência nos próximos cem anos — um assunto empírico que sustenta alguma consideração. É evidente que uma considerável sofisticação científica e filosófica seria requerida para fazer tal avaliação e difamar todo tipo de especulação ingênua — e o grande número de argumentos, que têm sido a característica de muitas contribuições para o debate sobre inteligência alienígena (Triture, 1993 realizou algum trabalho filosófico nesta direção).
[A] Veja, por exemplo, Drexler, 1992. Para uma discussão excelente de possíveis conseqüências da nanotecnologia maciça, veja Drexler, 1988. Para revisões mais contemporâneas leia as publicações do Foresight Institute.
[B] Este argumento é muito superficial. Por exemplo, negligencia o problema das interações de interface: se os processos de pensamento fossem um milhão de vezes mais rápido, qualquer processo no mundo externo pareceria um milhão de vezes mais lento, o que criaria problemas psicológicos, bem como também tornaria difícil a interpretação de dados sensíveis. Este modo inocente de apenas tomar um cérebro humano, copiá-lo e acelerar a cópia um milhão de vezes, enquanto ainda tendo-a viva em uma realidade decrescida, não funcionaria. Mas há modos melhores. Veja, por exemplo, Drexler, 1988 e 1992.
[C] Para uma avaliação veja o Crawford, 1995b.
Seus comentários são bem-vindos
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