Atrativos e Valores
por Nicholas Bostrom
Departamento de Filosofia, Lógica e Método Científico
Escola de Economia de Londres
[tradução atualizada em 03/98 por: Gustavo Muccillo Alves]
Nem todas as afirmações interessantes sobre o futuro precisam ser específicas. Suponha-se, por exemplo, que nós queiramos declarar que todas as civilizações avançadas tendem a se aproximar de um estado ideal em comum, mas não desejemos nos concentrar em exatamente que estado é esse. Bem, por que não definir uma tese de convergência, afirmando que as trajetórias de possíveis civilizações através do espaço de configuração tendem a convergir na direção positiva de tempo? Isto expressa uma forma interessante de determinismo sócio-tecnológico (que não tem nada a ver com determinismo físico em micro-nível). Ela diz que não interessando quais são as condições iniciais, uma civilização irá eventualmente se desenvolver em direção a um certo estado objetivo.
Como se apresenta, porém, a hipótese de convergência é insatisfatoriamente vaga. É instrutivo pensar em como poderíamos começar a polir e afiá-la.
Poderíamos iniciar explicando o que queremos dizer com “possível” civilização. Poderíamos afirmar que é toda civilização compatível com as leis físicas, excluindo-se condições de limite; mas algo que é mais restritivo deve ser mais proveitoso.
Poderíamos dizer que as “possíveis” civilizações são todas as civilizações fisicamente possíveis, que são compatíveis com o que sabemos sobre nossas civilizações. A idéia é que estamos interessados no que pode acontecer com a civilização humana e exemplificamos isso afirmando que todas as possíveis civilizações que têm todas as propriedades, que sabemos que a humanidade tem, compartilharão do mesmo destino de longo-prazo. Devemos então querer moldar este conceito um pouco, modificando-o para: “quase todas as descrições de civilizações humanas razoavelmente prováveis (menos do que o que sabemos) compartilharão de um destino de longo-prazo similar” — isto ainda é muito vago, embora seja um passo na direção correta.
Devemos prosseguir na decisão sobre quão longo é o termo “longo-prazo” e a quem devemos nos referir (a você e eu? À elite intelectual? A todos os seres humanos vivos?), e o quão similares os destinos compartilhados devem ser. Uma variável interessante é estender a denotação das “possíveis civilizações” para incluir não apenas as possíveis civilizações que poderiam eventualmente ser a nossa, mas também outras possíveis civilizações suficientemente avançadas. Poderíamos querer dizer algo como: “Uma vez que se tornaram suficientemente desenvolvidas quase todas as possíveis civilizações vão igualmente se tornar mais avançadas e, à medida que evoluem, se tornarão mais e mais similares na maior parte dos aspectos culturais importantes”. Adicionada uma pequena precisão, você teria formulado um interessante teorema.
Há outras impressões da tese de convergência. Poderíamos estar interessados em qualquer hipótese que diga que todas as possíveis civilizações, nas quais poderíamos transformar a nossa, compartilharão de um destino similar (se isso fosse verdade, nós seríamos impotentes para modificar o mundo no futuro próximo). Aqui é crucial especificarmos o que queremos dizer com “nós”. Por exemplo, se a palavra “nós” fossem todos os seres humanos, então nós poderíamos facilmente transformar nossa sociedade em alguma onde não fossem cometidos crimes — e esta deve ser uma boa idéia —, mas se o termo “nós” se referir a você e a mim, então não poderemos fazer isto (discussões sobre política freqüentemente sofrem de uma falta de relacionamento entre política e seus legisladores. “O que você deve fazer?”. “O que seu grupo de interesse deve fazer?”. “O que seu país deve fazer?”. “O que pessoas civilizadas devem fazer?”. Estas questões não precisam ter todas a mesma resposta. Não há esperanças para tentar praticar uma boa política em geral; alguém só pode fazer uma boa política para tais e tais legisladores em tais e tais situações (dados tais e tais objetivos)).
Uma hipótese rival seria a de rastros opostos de acordo com a qual as trajetórias futuras se repartirão em um pequeno número de porções maior do que um, as trajetórias dentro de cada porção convergindo. É levemente ilusório aqui falar em trajetórias de convergência; o que é pretendido preferivelmente é “rotas de desenvolvimento de civilizações tendendo na direção do mesmo estado objetivo” — como ilustração tome a seguinte história deveras ridícula: certa investigação profunda revela que em cada possível civilização semelhante à nossa em aspectos específicos emergirá qualquer uma ou outra de duas religiões A e B, com probabilidade aproximadamente igual. Essas religiões serão tais para inspirar seus adeptos com tal zelo, coesão e adaptabilidade que eventualmente decidirão dominar a cultura em que se originarem. Tendo obtido poder local elas empregarão novas tecnologias (drogas, eletrodos implantados, etc.) [A] para consolidar seus velhos templos e ganhar convertidos de outros grupos. Quanto mais fortes estas religiões se tornam, mais efetivamente estão aptas para implementar suas estratégias. Assim um positivo laço de retroalimentação se estabelece e logo conduz à total dominação do mundo. Então essas religiões embarcam no projeto de transformar tanto quanto podem do cosmos em estruturas onde depositam mais valores; talvez elas gerem o equivalente cósmico da “roda de orações tibetana”, ultracentrífugas gigantes girando trilhões de inscrições de “Glória a Deus A nas alturas” ou “Deus B”, conforme o caso. Todas as civilizações em que uma dessas religiões emerge vão convergir em um determinado sentido: todas elas conduzirão à rápida transformação da Terra e à gradual transformação do cosmos nas estruturas de valor específicas da religião, em questão, apesar de a duração e a execução precisa poder variar um pouco entre diferentes possíveis civilizações.
Neste caso alguém poderia dizer que o espaço de configuração artificial do universo (ou seja, sua configuração em respeito a seu conteúdo de artifícios; dois universos estão no mesmo estado artificial se eles contém artifícios idênticos) terá dois atrativos: domínio mundial da religião A ou B. Além disso, poderíamos dizer que os caminhos em direção ao atrativo central são completamente uniformes sobre todos os ângulos reais de aproximação. Quando este é o caso dizemos que o espaço de configuração artificial contém rastros, cursos de desenvolvimento tais que uma vez que uma civilização começou a viajar ao longo deles é improvável que essa civilização desviará desses cursos prevenindo maior interposição externa.
Estamos agora em uma posição de formular uma defesa para uma interessante hipótese sobre a topologia de nosso futuro, a hipótese de rastro, dizendo que o espaço de configuração artificial para todas as civilizações aproximadamente comparáveis à atual civilização humana contém vigorosos rastros na direção do futuro, qualquer um dos rastros ou um pequeno número deles.
Os esboços de alguns fragmentos do argumento para esta alegação (uma completa exposição requereria provavelmente um livro inteiro) poderiam ser delineados como segue. À medida que há progresso na ciência, tecnologia, infra-estrutura, estrutura econômica, etc, isso terá o resultado de nos tornar mais eficazes. Novas tecnologias aumentarão nosso poder; aumentadas nossas capacidades cognitivas (se através de algo maior do que a inteligência artificial ou de mera extensão dos atuais sistemas como a ciência, educação, tecnologia de informação, etc.), aumentará o nosso entendimento das conseqüências de usar este poder em diversas maneiras. O resultado disto é que nós teremos aumentado a habilidade de fazer a realidade conforme nossos desejos. Não há razão também por que não estarmos aptos a moldar nossos desejos de acordo com nossos desejos de mais alta-ordem. Assim, se há apenas poucos desejos de mais alta-ordem, que são genuinamente suportados por um grande número de agentes influenciadores, então se deve concordar que há apenas poucos atrativos em que nossa civilização poderia penetrar e, se pudesse ser estabelecido que a aproximação a qualquer um desses atrativos tenderia a ser uniforme sobre todas as direções reais de aproximação, então nós teríamos descoberto que a topologia de nosso futuro contém muitos rastros e teríamos feito um exemplo para a hipótese de rastro.
Alguém poderia então continuar a listar alguns objetivos e valores básicos plausíveis à primeira vista (valores básicos, não valores tais como jogar golfe, visto que aqueles que valorizam tal atividade presumivelmente o fazem porque a consideram divertida; mas, por exemplo, se eles pudesse ter muito mais diversão tendo seus centros de prazer diretamente estimulados química ou eletricamente sem nenhum efeito colateral, então não há razão para supor que eles continuariam jogando golfe). Aqui estão alguns fatos inéditos: (1) prazer absoluto máximo (hedonismo); (2) média dos atuais desejos transcendentes (humanismo); (3) máxima consciência, pura consciência, experiências religiosas, maravilhosas experiências profundas (espiritualismo); (4) reprodução máxima (darwinismo, isto poderia ser discutido em fundamentos darwinianos se vários sistemas de valor concorrentes estivessem presentes? — Hanson, 1994); (5) utilidade prática máxima tal como segurança, poder computacional, etc. (“pragmatismo”); (6) aniquilação voluntária ou involuntária (“niilismo”). A aniquilação involuntária não é um valor, mas uma possibilidade muito real de qualquer forma; é um plausível candidato para ser um dos rastros da nossa topologia de futuro.
Eu não estou aprovando nenhum pormenor destas alegações; o objetivo por que mencioná-las é simplesmente dar uma pequena ilustração de algumas maneiras com as quais alguém deve começar a teorizar sobre estes assuntos. Em muitas delas nós não poderíamos esperar conseguir qualquer coisa com uma abordagem certeira. Mas é fato que vamos basear muitas decisões conseqüentes em adivinhações a respeito destes assuntos, quer reconheçamos explicitamente ou não. Uma maneira de constituir nossas adivinhações é nos informar sobre os assuntos, discuti-los, argumentar sobre eles, explorar diferentes previsões, tentando aplicar conhecimento científico e tecnológico em todo momento que for possível (e há muitos tais momentos). Se alguém acha que há alguma forma melhor de fazer essas adivinhações ou que nós não deveríamos ainda nos preocupar em tentar defendê-las com fundamentos racionais, então deve ser seu o ônus de prova. Entretanto, especialmente nos anos mais recentes um crescente número de pessoas da classe-científica começou a levar a sério estes assuntos.
[A] A infame seita do Dia do Juízo Universal, mais conhecida pelo seu ataque com gás-nervoso no metrô de Tóquio, implantou eletrodos nos cérebros de alguns de seus fiéis para conectá-los às ondas cerebrais do líder.
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