Uploading, Ciberespaço e Cosmologia

por Nicholas Bostrom
Departamento de Filosofia, Lógica e Método Científico
Escola de Economia de Londres

[tradução atualizada em 03/98 por: Gustavo Muccillo Alves]

Será uma inteligência artificial consciente? Este é um problema filosófico tradicional. A opinião da maioria é que será provavelmente consciente, pelo menos, se for do tipo correto (estruturalmente similar a um cérebro humano, etc.) [A]. Continuará uma pessoa a existir se seu cérebro for lido por um scanner, neutralizado e uma simulação de nível neural rodar em um computador (o que se chama de “uploading neutralizante”)? Este é um outro problema filosófico tradicional, um caso especial do problema de identidade pessoal [B].
Estes dois clássicos problemas teóricos adquirem um inesperado novo significado quando considerados sob o ponto de vista da discussão anterior. Eles podem vir a ser de importância previdente objetiva! Por exemplo, alguém poderia argumentar que se há uma solução definitiva para estes problemas acessível à humanidade, uma solução que pode ser obtida por se pensar neles o bastante (aquilo em que muitos filósofos especialistas nestas áreas acreditam), então não é implausível assumir que a opinião geral entre civilizações inteligentes tenderá a convergir nessa solução. Isto é, se há uma certa teoria filosófica da consciência que é certa e uma certa teoria da identidade pessoal que é certa, então (vamos assumir que) a nossa comunidade acadêmica (e os seus sósias entre sociedades alienígenas, se estes existem) tenderá a acreditar nestas teorias. Mas parece provável que as suas crenças nestes assuntos devem afetar suas atitudes com relação a superinteligências e uploading. Por exemplo, se geralmente se acredita que os computadores nunca poderiam ser conscientes, então isto faz as pessoas menos inclinadas a favorecerem uma proposta que poderia resultar em uma gradual substituição dos seres humanos por computadores superinteligentes do que se geralmente se acredita que os computadores do tipo certo poderiam ser, pelo menos, tão conscientes quanto os humanos. Analogamente se as pessoas acreditam que a identidade pessoal não seria preservada em um “uploading neutralizante”, então elas seriam relutantes em se submeter a tal processo. Se as pessoas vão ou não querer fazer o uploading ou modificar as espécies humanas em favor do Robo Sapiens, é uma circunstância que pode ter um forte efeito em importantes características futuras sobre as quais nós gostaríamos de saber. Assim estes típicos dilemas filosóficos, os quais muitos pensaram estar completamente distantes do domínio da ciência e da predição prática, chegarão mais perto deste campo se as considerações acima forem corretas. Isto pode dar prestígio ao trabalho filosófico que tem sido realizado nestas áreas.
A postura filosófica que você assume sobre a filosofia da mente e da identidade pessoal também faz consideravelmente alguma diferença no seu ponto de vista a respeito do “Grande Filtro” e até em algumas de suas crenças sobre cosmologia. A teia de relações entre todos os assuntos que eu discuto neste artigo é muito densa, mas isto é parte do que o torna fascinante.
Há bastante trabalho filosófico para ser feito em cosmologia. Até agora provavelmente os filósofos fizeram menos para explicar problemas fundamentais de cosmologia do que fizeram em física quântica, mecânica estatística ou teoria da relatividade (entretanto, veja Leslie (1990) para uma coleção de ensaios sobre este assunto).
Algumas teorias que os físicos discutem são tão estranhas que é pertinente imaginar até que ponto elas são significativas ou até que ponto os termos que elas envolvem têm os mesmos significados que teriam em outros contextos. Suponha que poderia haver muitos universos totalmente inacessíveis uns aos outros. O quanto isto é compatível com o critério de verificabiliade (Ellis, 1975)? Talvez o critério de verificabilidade deva ser redefinido para levar em consideração algumas das atividades grotescas, mas legítimas, que acontecem nos departamentos de cosmologia física?
Outra idéia é que nós poderíamos esperar descobrir uma “teoria definitiva de todas as coisas” (Weinberg, 1993) e talvez até em algum sentido deduzi-la de afirmações mais ou menos científicas (Davies, 1990, Tyron, 1973, Davies, 1984, Pagels, 1985, Tegmark, 1997, e as memoráveis palestras memoriais de Derek Parfit, 1997)? Em que sentido “deduzi-la”? Talvez a teoria fosse tão simples, elegante e abrangente que qualquer um que a entendesse se veria obrigado a exclamar “Mas claro, é assim que ela é mesmo! Eu nem consigo ver como ela teria sido de maneira diferente. Por que você não pensou nisto antes?”. Ou talvez um senso mais convincente de “dedução” poderia ser defendido?
Para aqueles que percebem o mundo com um ponto de vista elevado e tentam levar o futuro longínquo tão seriamente quanto o presente, não deve haver tópico de maior importância do que o da vida infinita. Entre aqueles que têm uma visão-de-mundo materialista, costuma-se admitir amplamente que a expectativa de vida infinita (individual ou geral) é absolutamente inesperada, uma vez que a entropia em nosso universo está lentamente, mas, com certeza aumentando e, assim, degradando a energia disponível sob forma utilizável para processos orgânicos. Mas acontece que o assunto é muito mais complicado do que isto.
Há problemas em aplicar o raciocínio da Termodinâmica ao universo como um todo. O livro, A Física da Imortalidade, de Tipler, contém muita teologia duvidosa, mas também muitas idéias interessantes. Ele determina a hipótese de que o nosso universo é fechado e que em seus momentos finais será possível para um computador cósmico aumentar sua capacidade de processamento, à medida que este universo encolher, deste modo executando um infinito número de processos algorítmicos antes que o universo caia em um buraco negro. Isto levaria em consideração uma infinidade de tempo subjetiva para uma mente que rodasse simulada em um computador. Ele também argumenta que nós não devemos nos enganar por resultados tais como os da segunda lei da termodinâmica, do teorema da recorrência de Poincaré, da recorrência probabilística de Markov ou do teorema de recorrência do quanta, para rejeitar este possível acontecimento futuro. Pelo contrário, ele prova um teorema de não-recorrência baseado principalmente nas hipóteses: 1) a gravidade nunca é repulsiva; 2) o universo nunca entrará em um eterno estado estático indeciso entre expansão eterna e destruição e 3) o universo é determinista. Ele considera a terceira hipótese desnecessária. Ele não discute a teoria da inflação, que poderia invalidar a primeira hipótese, uma forma repulsiva de “gravidade”, ou como quisermos chamá-la, que poderia talvez fazer com que o universo “ressurgisse do caos” [C].
Outro evento futuro se encontra na obra, Infinito em Todas as Direções (1978), de Freeman Dyson, e se baseia na premissa de que o universo é fechado. A idéia aqui é que retardando continuamente as instruções computacionais, nós poderíamos reduzir o gasto nas relações de entropia entre os diferentes elementos do computador cósmico, assim, habilitando a continuidade do processo para sempre. Os mais recentes resultados sobre a aplicabilidade da computação reversível poderiam talvez ser utilizados para apoiar uma versão atualizada da previsão de Dyson.
Ainda outra previsão, às vezes denominada a previsão de Linde, por causa do seu emprego de alguns princípios físicos de teorias do famoso físico Andrei Linde (embora até aonde eu sei, Linde não tenha publicamente apoiado esta previsão), envolve a criação de novos universos ligados ao universo-pai por meio de “wormholes” (formigueiros) transversais (atalhos hipotéticos que ligam duas regiões de um espaço-tempo ou hiperespaço). Cada novo universo poderia ser pai de muitos novos universos, de modo que toda população crescesse exponencialmente e a degradação entrópica gradual de universos antigos desempenhasse apenas um papel insignificante no retardamento do processo.
É desnecessário dizer que os eventos de Tipler, Dyson e Linde são todos conceitos de física de previsão extremamente especulativa. Mas eles lançam um desafio a quem afirma ter certeza de que a experiência de vida consciente está fadada a expirar dentro de um tempo finito. Seria interessante se verem estes assuntos desenvolvidos em mais detalhes e talvez relacioná-los às filosofias de mecânica estatística, física quântica e espaço e tempo. Pessoalmente eu não creio muito em um caminho ou outro; mas eu acho que se há um caminho fisicamente permissível para a vida existir eternamente, então não é improvável que nossos sucessores pós-humanos vão seguir de fato esse caminho, contanto que, em princípio, nenhum Grande Filtro impeça tais pós-humanos de virem a existir e, além disso, previna-se o argumento do Juízo Universal.
Há também as previsões típicas de Moravec, que podemos chamar de previsões transcendentes. Quem sabe o nosso universo é uma simulação em outro computador gigante, em outro universo? A idéia pode parecer extremamente excêntrica, mas pode ser filosoficamente estimulante verificar a sua conseqüência.
Por que deve alguém em algum outro universo (ou nos momentos finais do nosso próprio, como sugere Tipler) querer simular o nosso universo? Eu não sei de nenhuma boa razão, mas vamos devanear e dizer que se pode fazer isto por curiosidade ou como um passa-tempo ou porque se pensa que pode haver algum valor intrínseco à existência de um universo como o nosso. Na previsão de Tipler as gerações futuras desejariam revitalizar suas ancestrais, o que por sua vez obrigaria tais gerações ancestrais a viverem novamente e assim por diante, então haverá uma razão indireta por que todos os humanos que já existiram retornarem à vida novamente. Agora, há algumas características de nosso mundo que alguém deve ter esperado que fossem cortadas ou censuradas por estes “deuses-hackers”, tais como sofrimento, hábitos triviais (cortar as unhas), assim como todos os detalhes supérfluos do mundo físico, se de fato o mundo físico estiver sendo simulado (no lugar de apenas todos os cérebros de todos os seres em nosso universo). Mas talvez estas características tenham algum significado mais profundo. Ou os deuses-hackers tenham acesso a um computador com poderes infinitos, fazendo com que o gasto em simular qualquer sistema finito seja efetivamente nulo. Talvez o preço de uma simulação não seja cumulativo, então se duas simulações idênticas fossem finalizadas, haveria ainda o valor de uma apenas. Então os deuses-hackers tendo acesso a um computador com poderes infinitos simulariam uma série de possíveis mundos diferentes, um dos quais seria o nosso. Mas se isso acontecesse, não seria surpreendente que nós devêssemos nos encontrar em tal mundo extraordinário? Para todo mundo que é regular como o nosso, parece haver inúmeros mundos possíveis, que são similares a ele em algumas circunstâncias, mas contém alguma irregularidade — talvez uma mesa voando no céu em 1958 sem nenhuma causa aparente, ou quem sabe alguns elefantes tivessem um tabuleiro de xadrez refletindo sobre suas costas, ou pequenos cubos pudessem aparecer no ar, vindos do nada, em intervalos irregulares acima de prédios amarelos: as possibilidades são infinitas. Portanto, o fato de nosso mundo ser tão regular pareceria indicar que não há também muitos e muitos outros mundos irregulares existentes, de maneira que nós quase com certeza tivéssemos nos encontrado em algum deles em vez de em nosso próprio planeta. Mas talvez seja mais barato simular um mundo regular do que um irregular em tamanho igual e riqueza, e talvez os deuses-hackers não tenham poder computacional ilimitado, no final das contas.
Poderia se questionar se seria uma hipótese significativa que o nosso universo é apenas uma simulação ao invés de uma realização verídica, se as duas alternativas forem postuladas para serem equivalentes sob observação. Este é um assunto de filosofia. Porém considere a charmosa historieta que Moravec (1988) conta sobre “Newway e os Celltics”. Newway é um cientista informata que decide rodar uma imensa implementação do conhecido algoritmo Life, inventado por J. H. Conway, em 1969, com o qual qualquer um que tenha cursado uma introdução em programação se sentiria familiar. Nesta simulação, depois de séculos de tempo subjetivo, surge uma complexa e inteligente forma de vida, os Celltics. Sabemos que isto é possível porque foi provado que é possível se criar uma máquina com armazenamento de informação infinito (Universal Turing Machine) no mundo de Life. Os Celltics desenvolvem a ciência e a física e descobrem as leis físicas básicas de seu mundo, ou seja, o algoritmo de evolução elementar do programa Life. Descobrem que seu mundo é determinista e governado, em um nível microscópico, por um punhado de leis ordinárias. A sua ciência não pára neste ponto, é claro, visto que continuam a desenvolver suas teorias sobre fenômenos de alto-nível (desde o comportamento de “planadores“, “semáforos”, etc, até estágios muito mais altos). Depois de certo tempo, algum Celltic especialmente iluminado chega com a idéia de que o seu mundo é uma simulação em um computador. Muitos de seus amigos sem dúvida riem dele e alguns Celltics-filósofos declaram que esta é uma hipótese sem sentido — mas ele eventualmente trata de obter fundos para um projeto em larga-escala a fim de investigar sua teoria. A idéia é que se o mundo Celltic é uma simulação em um computador, tal computador pode ter um pequeno defeito — como um acúmulo instantâneo de células de memória, digamos — e a esperança é que os efeitos deste possível defeito (alguns pixels se comutando ocasionalmente em desacordo com as leis físicas) poderiam ser detectados por um aparato de vigilância conveniente. Então, eles passam a procurar por anomalias em seu mundo físico e encontram uma evidência para a hipótese de que existem apenas como uma simulação. A investigação continua e comparando os padrões de diversas anomalias diferentes eles certamente se tornam aptos a formular uma idéia sobre a arquitetura do computador em que estão rodando e sobre a vida mental de seus criadores. Eles decidem entrar em contato com estas pessoas em outro mundo por meio de estruturas harmônicas desenhadas para atrair sua atenção. Newway percebe padrões extraordinários em seu monitor um dia quando examina o mundo de Life. Newway e os Celltics começam a se comunicar, ele pela manipulação alguns pixels na simulação e os Celltics criando estruturas que obedecem as suas leis físicas. Eles convencem Newway a construir um veículo robótico que possam controlar para interagirem mais facilmente com o mundo de Newway. Eles estão eventualmente imersos no mundo de Newway, deixando para trás seu velho mundo bidimensional. Quando eles contam aos humanos sobre sua façanha obtém destes seres cooperação para transcender o universo humano também.
Esta predição da transcendência deve dar um novo aspecto a alguns problemas clássicos de metafísica. E também nos leva a imaginar sobre a natureza das simulações, otimizações (por exemplo, o programa Life pode ser acelerado drasticamente, se aplicarmos uma técnica, chamada de hashing (remodelação), para reduzir o número de instruções desnecessárias); e múltiplas interpretações do mesmo processo computacional (por exemplo, se nós temos um padrão sensível de oscilações e acontece que sua transformação de Fourier também contém um padrão sensível ostensivamente diferente, seriam ambos os padrões sensíveis realizados através de uma implementação do padrão da oscilação? Quantos padrões distintos ou instruções seriam realizados? Ou há alguma forma de argumentar que todas as instruções implementadas são de alguma maneira as mesmas?); diferentes níveis de realidade, etc. — Moravec até brinca com a idéia de que a indeterminância do quanta pode ter sido simplesmente um modo conveniente de limitar a resolução detalhada na simulação de nosso universo!
Agora, isto é tudo especulação muito subjetiva. Porém, algumas idéias em física, que se tornaram frutíferas, foram também uma vez subjetivamente especuladas. A melhor estratégia pode ser manter a mente aberta a essas especulações à medida que alguém as considere estimulantes; enquanto procura tomar cuidado para não dar aos indivíduos leigos idéias erradas sobre o que é pura fantasia, o que é especulação, o que e extrapolação razoável de fatos conhecidos e o que é aceito, a ciência bem-confirmada.
[A] Para um resumo recente, veja Chalmers (1996).
[B] O ponto de vista preferido parece ser algo avante ao que foi deduzido por Parfit (1985), embora este seja mais controverso.
[C] Veja Linde (1990), por exemplo.

Seus comentários são bem-vindos
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Posted by Santiago Ochoa on 2004/05/27 • (0) Comments
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