Transumanismo

por Nicholas Bostrom
Departamento de Filosofia, Lógica e Método Científico
Escola de Economia de Londres

[tradução atualizada em 03/98 por: Gustavo Muccillo Alves]

Ao longo dos últimos anos um novo paradigma de pensamento sobre o futuro da raça humana começou a ser desenvolvido por renomados cientistas da computação, neurocientistas, nanotecnólogos e pesquisadores de vanguarda em desenvolvimento tecnológico. O novo paradigma rejeita uma suposição crucial, que está implícita na tradicional futurologia e praticamente em todo pensamento político da atualidade. Este é o postulado de que a “condição humana” é uma constante por natureza. Os procedimentos atuais podem passar por finos ajustes; a riqueza pode ser aumentada e redistribuída; as ferramentas podem ser desenvolvidas e refinadas; a cultura pode mudar, algumas vezes drasticamente; mas a natureza humana por si mesma não está em promoção.
Este postulado há algum tempo já não é verdadeiro. Evidentemente ele nunca foi verdade. Inovações tais como discurso, linguagem escrita, impressão, maquinaria e medicina moderna tiveram um profundo impacto não só em como as pessoas vivem, mas em quem e no que elas são. Comparando-se ao que deve acontecer nas próximas décadas, estas mudanças podem ter sido lentas e até relativamente subjugadas. Mas note que até uma única inovação adicional, tão importante quanto as que foram mencionadas acima, seria suficiente para invalidar as projeções ortodoxas sobre o futuro de nosso mundo.
O “Transumanismo” tem sido aceito como uma nova forma de pensamento que desafia a premissa de que a condição humana é e vai permanecer essencialmente inalterável. Remover este bloqueio mental permite à pessoa enxergar uma paisagem brilhante de possibilidades extremas, desde a felicidade ilimitada até a extinção da vida inteligente. Em geral na consciência do presente o futuro parece muito louco — mas talvez muito maravilhoso — de fato.
Essencial para o transumanismo é a crença na possibilidade de uma mudança tecnológica drástica. Podemos denominar isto de O postulado de tecnologia. Se quisermos podemos explicá-lo um tanto arbitrariamente como segue:
O postulado de tecnologia. Assumindo-se que nossa civilização continuará a existir, então vários dos fatos seguintes serão possíveis dentro de 70 anos: inteligência sobre-humana, felicidade constante, expectativa de vida ilimitada, transferência da mente para uma realidade virtual, colonização galáctica (introdução), nanotecnologia drexleriana.
O postulado de tecnologia usualmente é pressuposto em discussões transumanistas; é por isso que o chamamos de postulado. Mas isto não se trata de fanatismo; é uma hipótese defendida em fundamentos científicos e tecnológicos específicos (e a hipótese é testável, sendo o modo mais simples de fazer isto se esperando 70 anos para ver).
O transumanismo concorda com o humanismo em muitos pontos, mas continua além deste enfatizando que nós podemos e devemos transcender nossas limitações. Esta é uma das definições populares de transumanismo. É importante se notarem os três seguintes princípios sobre esta afirmação.
Primeiro, os transumanistas tendem a ser muito tolerantes: eles saúdam a diversidade e não desejam impor as novas tecnologias às pessoas que preferem não usá-las. Os transumanistas apenas defendem que aqueles que querem transformar a si mesmos pelos meios tecnológicos devem ter o direito de fazer isto.
Segundo, “devem ter o direito de fazer isto” não deve ser tomado para prejudicar a questão de como alcançar o objetivo. Por exemplo, se alguém pensasse que um século de suspensão de avanços tecnológicos fosse a única maneira de evitar um apocalipse nanotecnológico, esse alguém ainda poderia ser classificada como um transumanista, contanto que sua opinião não se originasse de uma tecnofobia e de uma deferência ao que se entende como “natural”, “ordem divina”, etc., mas fosse o resultado de uma reflexão racional sobre as prováveis conseqüências das políticas possíveis.
Terceiro, para muitos propósitos, é aconselhável se eliminarem os valores subjetivos da discussão de modo geral, assim se fazendo afirmações completamente objetivas. Isto pode ser feito se relacionando diferentes valores. Em vez de dizer “Você deve fazer X”, alguém pode dizer, “Se você quer A então a medida mais eficiente de obtê-lo é X; se você quer B então a medida mais eficiente de obtê-lo é Y e etc.”. Estas são apenas proposições puramente factuais. Resulta que muitas das questões que nós queremos ter resolvido são independentes de quais exatamente são os nossos objetivos finais.
Eu recomendo que o termo “transumanismo” seja usado como propaganda de uma linha de pensamento caracterizada pela crença no imenso potencial da nova tecnologia, concernente aos desenvolvimentos de longo-prazo, e uma rejeição do dogma de que o organismo humano contemporâneo não pode ser drasticamente incrementado e melhorado. Os transumanistas se distinguem pelo tipo de questionamentos que formulam (extensas perguntas sobre o futuro e questões mais meticulosas sobre como ir daqui para lá ou sobre os desenvolvimentos presentes na ciência e na sociedade) e pela forma como as respondem (científica, analítica, matemática) no lugar de o fazerem por uma série de dogmas fixos. Embora o transumanismo por si mesmo seja assim inclusivo e permissivo, resultados específicos que são discutidos podem ser tão definitivos quanto alguém desejar.
Se decidirmos acreditar que há bons fundamentos para assegurar que o Postulado de Tecnologia é verdadeiro, quais conseqüências isto terá para como percebemos o mundo e como passamos nosso tempo? — uma vez que começamos a refletir sobre esta questão e nos tornamos cientes de suas implicações: é muito profundo.
Desta consciência o nasce movimento transumanista com suas diversas manifestações. É impossível dar uma descrição compreensível em poucos parágrafos, mas podemos começar identificando alguns dos mais proeminentes campos de atividade.
Uma grande parte do transumanismo discute específicas tecnologias do presente ou do futuro. Os debates freqüentemente envolvem detalhes técnicos, mas também tentativas de entender as implicações dessas tecnologias para a sociedade humana. Entre os avanços futuros dois se destacam em termos de importância: nanotecnologia molecular e inteligência artificial.
Nanotecnologia é o projeto e a manufatura de aparelhos de precisão em escala-atômica. Utilizando montadores (“assemblers”), máquinas moleculares que podem dispor átomos em quase todos os arranjos compatíveis com as leis da física, nós seremos capazes de fazer reparos nas células, colonizar o espaço em larga-escala, produzir quaisquer produtos agrícolas por um baixíssimo custo (mas perfeitamente adequados para a alimentação), e produzir chips do tamanho de um cubo de açúcar, mas ainda um milhão de vezes mais poderosos do que um cérebro humano. A exeqüibilidade da nanotecnologia foi discutida primeiro de uma forma sistemática, por Eric Drexler (1988 e 1992), e hoje um campo de pesquisa que cresce rapidamente é o desenvolvimento de tecnologias disponíveis que nos permitirão vivenciar a nanotecnologia. Os riscos, assim como os benefícios, são enormes.
Superinteligência significa uma inteligência que ultrapassa os melhores humanos em praticamente todas as faculdades mentais, incluindo criatividade científica e artística, sabedoria geral e aptidões sociais. Muitos transumanistas acreditam que seja apenas uma questão de tempo para que a superinteligência e a inteligência artificial de nível humano sejam desenvolvidas. Alguns pensam que isto pode acontecer no primeiro terço do próximo século. Uma razão por que pensar assim é que se alguém acredita que a nanotecnologia avançada estará disponível por então; dado a nanotecnologia molecular, então muitos pensam que faltaria pouco tempo para que a superinteligência pudesse construída. Mas até à parte da possibilidade da nanotecnologia, é possível argumentar, conforme as estimativas de capacidade processamento do cérebro humano (Moravec 1998a e 1998b), que o equipamento necessário para a inteligência artificial de nível humano estará disponível dentro de poucas décadas. O programa de computador poderia ser gerado segundo o processo ascendente, usando-se o nosso entendimento de como o cérebro humano funciona. A Neurociência pode nos dar a informação de que precisamos para replicar em um computador os princípios básicos subjacentes a uma rede neural cortical humana (dado um equipamento suficientemente rápido). E um progresso nesta instrumentação significará que a neurociência pode esperançosamente prover esta informação dentro das duas próximas décadas (Bostrom, 1997).
Outras tecnologias presentes e futuras, que são muito discutidas, são a engenharia genética, drogas psicoativas clínicas (para melhorar o humor e a personalidade, possivelmente também a performance cognitiva em adultos saudáveis (Pearce, 1996)), tecnologia de informação, interfaces cérebro-máquina, criogenia, tecnologia espacial e muitas outras coisas.
Um segundo campo do transumanismo está preocupado com considerações mais gerais ou indiretas, que devem ter alguma conexão com os prospectos de nossas espécies. Um antigo tópico é o denominado Paradoxo de Fermi, embora atualmente o estado da biologia evolutiva pareça insuficientemente avançado para nos permitir tirar quaisquer conclusões sobre nosso próprio futuro deste tipo de argumento. Outro tópico é o altamente controverso Argumento Carter-Leslie sobre o Dia do Juízo Universal. Contudo, outro argumento de um tipo geral é aquele que apóia a Hipótese de Rastro (Bostrom, 1997).
Um terceiro campo de ação é constituído por muitas tentativas de melhorar o funcionamento da sociedade humana como uma comunidade cognitiva. Além de tentar determinar o que está acontecendo podemos tentar melhorar a si mesmos fazendo isso. Nós podemos projetar instituições que vão aprimorar a eficiência das comunidades acadêmicas e de outros estabelecimentos de ensino; podemos criar aplicações de tecnologia de informação que ajudem a compilar o conhecimento ou auxiliem a distribuição de idéias valiosas.
Uma simples, mas brilhante idéia, desenvolvida por Robin Hanson é que nós podemos criar um mercado de idéias futuras. Basicamente isto significa que será possível se fazerem apostas em todos os tipos de disputas por questões científicas e tecnológicas e predições de eventos futuros. Entre os muitos benefícios de tal instituição para a humanidade estariam que ela empregaria legisladores e outros profissionais em comum acordo sobre estimativas de várias probabilidades.
Alexander Chislenko (1997), e outros, têm produzido idéias de como a Internet poderia ser usada para extensas formas de “filtragem de informação colaborativa”, que tenderiam a remover a “imprecisão” (“bogosity”) e acelerar a difusão daquilo que é racionalmente defensável, textos interessantes.
Na mais recente conferência transumanista [A] o primeiro programa de computador para análise de conteúdo em páginas da Web foi demonstrado. A esperança é que, à medida que este software for sendo amplamente utilizado, ele promova uma discussão crítica e ajude a aniquilar pretensões excêntricas. Estes e outros avanços devem contribuir para a humanidade como um todo pensar melhor e tomar melhores decisões, uma coisa muito meritória por que lutar.
Finalmente podemos apontar um quarto campo onde eu por razões de brevidade juntarei uma série de atividades sob o título, um pouco inadequado, de “pessoal”. Estas incluem atividades sociais, redes, aprimoramento pessoal, perpetuação memética, aparições na mídia, organizações estruturais, listas de discussão, conferências, jornais e o movimento de arte transumanista. Uma vantagem de ser transumanista é a quantidade de pessoas interessantes que você acaba conhecendo.
Considerando quanto tempo já perdeu, você pode achar que o melhor que pode fazer por este planeta é procurar um jeito de fazer de sua atividade algo relevante para os objetivos transumanistas. A Fundação Mundial Transumanista foi criada em 1997 para ajudá-lo a fazer isto.

[A] Extro3, no verão de 1997, em San Jose, Califórnia.

Seus comentários são bem-vindos
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Posted by Santiago Ochoa on 2004/05/27 • (0) Comments
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